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Dia 11: projeto inovação educacional em foco

Acabou.

Finalizei a ultima visitação técnica a menos de 30 minutos atrás e estou emocionada. Foi tão difícil segurar que preferi me esquivar da delegação brasileira que estou fazendo parte. É que na verdade eu caí em prantos. E não foi de saudade dos meus filhos.

A Estônia foi uma gratíssima surpresa! Muitas iniciativas positivas aqui. Impressionante o mindset colaborativo deles – que configura uma nova visão de competição. Como são atualizados.

O último encontro que participei foi com o presidente da associação dos diretores da Estônia. E, a cada palavra que ele dizia eu fui chegando mais perto da seguinte conclusão: “a Educação não é um problema político nem financeiro. É um problema de mindset”.

Quando pessoas entendem o real propósito da educação, elas naturalmente se movimentam a favor dele.

Nós somos o que acreditamos. Nós fazemos o que acreditamos. Nós agimos a favor do que acreditamos. É uma característica humana.

Se o que fazemos não tem funcionado é sinal de que precisamos mexer nas nossas crenças. Acima de tudo.

A autoavaliação tem um lugar especial no sistema de educação estoniano. É considerada sua gênese motivacional: “se eu tenho o poder de me avaliar, logo eu assumo a responsabilidade pelo meu próprio resultado”. Ou seja, representa uma auto-motivação para conseguir evoluir meus resultados. Além disso, implica na noção humilde de reconhecimento da própria vulnerabilidade. E na ideia de que “as coisas partem mais de você do que de qualquer outro fator externo”.

Este é o mindset necessário para qualquer mudança real e eficiente. Ademais, é através da compreensão da minha vulnerabidade, do fato de que sou incompleto, que abro o espaço para a colaboração. Afinal, numa ótica de que “tudo posso” sou “auto-suficiente”, não preciso de ninguém para colaborar comigo.

Durante todos esses dias de pesquisa e visitação eu me mantive firme no propósito de encontrar inputs e de adotar uma postura mais criativa do que comparativa. Volto ao Brasil com muitas ideias e com a missão de elaborar um checklist prático e de fácil aplicação para que professores de todas as escolas (independente de recursos financeiros ou intelectuais) possam promover mudanças significativas, orientando-nos para atender as demandas reais desse século XXI.

Dia 13 de junho de 2019, às 19h30, realizarei um hangout para alguns dos apoiadores da campanha que financiou coletivamente essa pesquisa. Se você deseja participar e ouvir todos os meus demais insights, contribua com este projeto através desse link, aqui.

Até breve!

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Dia 10: projeto inovação educacional em foco

Uau! Que dia lindo! Lindo estéticamente falando (porque hoje o céu abriu totalmente e o sol brilhou forte apesar do frio de 8 graus) e lindo também de aprendizados!

Ontem choveu muito, o dia foi completamente cinza. E hoje o exato oposto. É realmente interessante e instigante essa variação aqui – o que, conforme Tanel Oppi (head de inovação e educação da INNOVE) disse ontem durante o seminário que participei, configura o mindset do estoniano que “age sem esperar que o sol se abra” (porque nunca se sabe muito bem quando vai ser. E nã é de temperatura que estou falando. Ontem e hoje a temperatura foi semelhante. Mas um com muita chuva e outro de céu completamente azul…

Está sendo maravilhoso constatar a valorização da educação como cultura aqui e o quanto eles alinham as estratégias de educação de acordo com suas metas de desenvolvimento econômico.

Hoje estive com Andres Pajula, secretário da Educação de Tallin (capital da Estônia) que é referência para todo modelo estoniano e ele falou muito das habilidades sócio-emocionais, especialmente de como elas fazem a diferença na primeira infância.

Segundo ele, 94% das crianças entre 3 e 7 anos de Tallin estão na escola onde o que fazem é valorizar o brincar e o desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais através das brincadeiras. Contou também o quanto percebem na prática que essas crianças se desenvolvem muito melhor nos anos seguintes.

Aqui na Estônia eles realmente utilizam muitas metodologias ativas de ensino e aprendizagem. A tecnologia tem sido vista não só como uma estratégia da educação para contribuir com a manutenção do título de e-país (país mais digitalizado do mundo) que a Estônia tem, mas também como ferramenta que conduz a aprendizagem de habilidades emocionais para além das técnicas.

Visitei também um centro de práticas da universidade tecnológica de Tallin que funciona como um coworking. É um espaço aberto para a comunidade em que os alunos da universidade utilizam gratuitamente para desenvolverem seus projetos e empresas e demais interessados alugam.

Neste centro foi especialmente interessante perceber que a maioria das iniciativas são voltadas para o engajamento de crianças às novas tecnologias e também como recursos didáticos extra-classe para aprenderem sobre temáticas diversas.

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Dia 9: projeto inovação educacional em foco

Hoje, em Tallinn, o dia começou com uma reunião no Innove, a instituição privada que ocupa o lugar de órgão executivo do Ministério da Educação da Estônia. A parceria público-privada funcionou muito bem para alavancar os indicadores nacionais de educação deste país. Mas foram dois outros pontos que me chamaram atenção especial.

O primeiro foi o fato de eles atribuirem ao Benchmarking que fizeram com a Finlândia o resultado de primeiro lugar da europa no ranking nacional de educação PISA. O segundo refere-se ao fato de eles terem as mínimas condições para aplicarem este modelo.

O sucesso da educação finlandesa está principalmente na valorização e capacitação dos seus professores. A Estônia já vem há alguns anos oferecendo sua atenção a estes profissionais e, por isso, quando se abriu ao conhecimento prático e estratégico da Finlândia, obteve sucesso.

Isso foi, mais uma vez, um lembrete para que essa visita sirva mais como novos inputs do que como base para qualquer avaliação ou comparação com o que temos no Brasil.

Durante essa viagem, tenho registrado muitos insights e compartilhando com o grupo de apoiadores da campanha de financiamento coletivo que possibilitou essa pesquisa. Mas gostaria de registrar um por aqui:

Eles valorizam muito o Lifelong Learning (aprendizagem continuada) e desejam que “aprender” seja configurado como um Lifestyle (estilo de vida). Vejo a aprendizagem continuada como uma estratégia de manutenção da qualidade da educação e, talvez olhando para o nosso patamar, como o início da transformação de um ciclo vicioso para um ciclo virtuoso. Porque ela possibilita não só o desenvolvimento continuado de profissionais como o desenvolvimento do ser humano em sua integralidade, visto que abrir-se continuamente ao aprendizado configura um mindset de consciência de nossas vulnerabilidades e da humilde necessidade de evoluir. Nesse sentido, é capaz de aprimorar a qualidade de ver e viver a vida – o que, em consequência, melhora a educação de nossas crianças.

Empresas precisam valorizar e estimular a aprendizagem continuada dos adultos. E isso não quer dizer aumentar salários conforme aquisição de títulos. O que as empresas fazem aqui é disponibilizar horas da jornada de trabalho para a realização de cursos eletivos e complementares. Escolas possibilitam cursos extras para professores e também para pais.

A mentalidade de “tenho sempre algo a mais para aprender” é estimulada como uma fome que nunca deve ser saciada.

Eis aí uma prática explícita de desenvolvimento sócio-econômico continuado, tendendo sempre ao crescimento, baseado na educação.

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Dia 8: projeto inovação educacional em foco

Hoje é domingo, dia das mães. O primeiro que vivencio desde que meu segundo filho nasceu. Mas não estou ao lado dele. Estou em Tallinn, capital da Estônia, numa viagem técnica para buscar insights em inovação educacional.

Do fundo do meu coração, não sinto mais saudade dos meus filhos hoje só porque é o dia das mães. Não me ocupo muito com isso. Todavia, o fato de eu estar longe deles parece que me disponibilizou uma nova reflexão nesse dia, sobre a maternidade.

Eu estava visitando um museu aqui em Tallinn, pela manhã de hoje, quando me veio a saudade e a imagem dos meus filhos à minha mente. Eu fechei meus olhos e coloquei-me a recordar o dia em que cada um deles nasceu. Os dois partos, tão diferentes e únicos, assim como eles!

Já escrevi para minha mãe e agradeci por todo exemplo que ela me deu, por tudo o que ela me permitiu ser. Mas foi quando parei para resgatar as fotos dos partos dos meus filhos que eu tive um insight:

A família (a “instituição” mais antiga) é o conceito que mais precisa ser inovado para alcançarmos melhorias na educação de nossas crianças. Porque ela é a base de tudo, o início de tudo.

Eu olhei para as duas fotos (uma do nascimento da Elisa e a outra do nascimento do Filipe) e nas duas estava também o meu marido. Me abraçando e os abraçando também. E pensei que eu não seria mãe (ou não poderia começar a ser mãe) se não fosse ele. Para gerar crianças, duas pessoas são necessárias. Para criar crianças, muitas pessoas são necessárias. E aí pela primeira vez eu vi um novo sentido naquela sugestão de trocar “o dia das mães” e “o dia dos pais” pelo “dia da família”.

Por quê nunca existe “só ser mãe” nem “só ser pai”. Sempre existe UMA FAMÍLIA.

Mesmo em se tratando das mães (ou pais) solos. Mesmo que aparentemente seja “só ela” (ou só ele) e a criança. Nunca é “só”. É sempre de UMA FAMÍLIA que estamos falando. Uma mãe e uma criança JÁ SÃO UMA FAMÍLIA. E é esse o conceito que precisa ser revisado, inovado. É esse valor que precisa ser estabelecido para que qualquer semente plantada na escola possa florescer.

Hoje, na minha ausência (física) para meus filhos, é minha família que aquece os corações deles. Meu marido, minha mãe, meu pai, minha irmã e meu cunhado. Eles todos estão lá. Sendo FAMÍLIA.

Acima de tudo o que envolve o fato de as MÃES precisarem ser lembradas e valorizadas neste dia (especialmente pelo histórico desdém que a sociedade tem para com essa “espécie” de ser humano que é SIMPLESMENTE A BASE DE TODA HUMANIDADE) eu precisava acrescentar o quanto nós somos FAMÍLIA.

Ser mãe é ser família.

E estar em família é a origem de todo florescer.

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Dia 7: projeto inovação educacional em foco

Saí de Frankfurt hoje às 10h, de avião. Cheguei no hotel em Tallinn (Estônia) por volta das 14h30. Almocei e fui dar uma volta no comércio daqui. E agora estou descansando. Estou exausta!

Hoje não visitei escolas, até porque é sábado, mas queria contar sobre algumas reflexões que o dia tem me propiciado.

Estou com a cabeça cheia de ideias. Mil coisas. Mil e uma possibilidades. E, ao mesmo tempo, sem conseguir saber o que farei com elas todas.

A saudade está apertando.

Sinto-me sozinha, com saudade da minha família, numa cidade em que não conheço bem.

Tentei ler algum livro, assistir algum filme mas estão funcionando como mais inputs em vez de me relaxarem. O que fazem minha cabeça ficar ainda mais cheia.

Há algumas semanas eu palestrei em prol de uma ong de refugiados. Falamos sobre criatividade, claro. Mas ressaltei que não existe criatividade quando as necessidades básicas do indivíduo não estão satisfeitas minimamente (que é o que acontece com a maioria dos refugiados).

Eu não estou com fome, sinto-me segura, num lugar protegido, mas a saudade me balança. E, emocionalmente fragilizada, não consigo processar ideias.

Recentemente eu perdi algumas oportunidades por que elas chegaram em momentos que eu não estava emocionalmente preparada. Quando me coloquei para analisar o ocorrido, me propus criar um check-list de coisas que posso rapidamente fazer para me equilibrar, me fortalecer e cuidar dessa minha vulnerabilidade (aceitando-a como minha sem permitir que ela me prejudique).

O primeiro item do meu check-list é SENTIR. Dar o momento de processar sensorialmente o que me incomoda.

Depois é ouvir uma música reenergizante. Com fone de ouvido e preferencialmente olhando para uma paisagem bonita.

O terceiro ponto está em descarregar num papel o que sinto.

Depois, busco algo que faça eu me sentir acolhida e amada. Pode ser um abraço, uma ligação ou até mesmo uma boa comida.

E, no quinto passo, eu me disponho a racionalizar. Penso sobre o que aconteceu para resultar naquele incômodo ou naquela situação que me desequilibrou. Penso o que poderia fazer para ser diferente. Às vezes eu poderia ter feito algo que não fiz. Às vezes, não. Independente da conclusão, sinto que este passo me alivia bastante também.

Hoje eu me permiti gastar minha tarde no passo 1. E acho que escrever aqui já esteja funcionando como o passo 3.

Mas a reflexão é que, dicotomicamente, com criatividade também se encontra alguma solução possível para satisfazer a pirâmide das necessidades básicas. Obviamente considerando uma situação cuja a não-satisfação delas é temporária e não permanente – o que pressupõe que haja um mínimo de reserva de energia para ser investido no processo criativo focado na recuperação “básica”.

Lembro que faz parte da Criatividade a habilidade Coragem. E, num processo de reconhecer-se vulnerável, é de coragem que se precisa para transformá-la ao nosso favor.

E é impressionante como sinto-me melhor agora! Mesmo tendo ainda outros passos para seguir, cada um ao seu tempo.

Um abraço e até amanhã!

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Dia 6: projeto inovação educacional em foco

Hoje visitei escolas particulares em Fellbach, cidade metropolitana de Stuttgart, na Alemanha. Mas não gosto de definí-las como particulares porque o esquema particular da educação alemã é completamente diferente do Brasil.

O exercício de não comparar e apenas me focar em inputs e insights que podem se transformar em práticas realmente úteis e aplicáveis na maioria das escolas do Brasil, de fato é um grande esforço e desafio. Por isso, peço que, ao lerem o que eu escrevo por aqui, vocês façam o mesmo exercício.

Nas escolas visitadas hoje as metodologias ativas e o ensino de habilidades sócio-emocionais também são ofertados para os alunos do Ginásio. E eu fiquei especialmente feliz ao descobrir que a impressão que eu havia tido da visitação à escola de ontem (que tinha metodologia bastante tradicionalista para o Ginásio) na verdade não condiz com a realidade da maioria das escolas aqui – hoje pude conversar sobre e perceber melhor isso.

É impressionante como todas as 6 escolas que eu visitei na Alemanha valorizam a produção artística e criativa das crianças, independente da idade e trilha escolhida. Mais que isso, chamou-me a atenção o quanto existem práticas criativas e simples para resolver problemas cotidianos – como o termômetro de stress dos professores, o controle dos alunos, a gestão de suas emoções e comportamento.

O fato de a Alemanha só obrigar a presença na escola a partir dos 6 anos, somado ao fato de as escolas de 0 a 6 permitirem (na maior parte do tempo) o convívio de crianças com idades distintas pode parecer para alguns brasileiros que o país desedenha a primeira infância.

Todavia, a partir dos meus estudos eu consigo ter um olhar mais positivo sobre isso. A meu ver, a escola pressupõe o respeito a regras de convivência em geral e impõe certa pressão (natural) para o alcance de suas metas acadêmicas e curriculares. Entendo que isso seja proposta unânime de toda e qualquer escola, independente do país. Portanto, quando um país não obriga uma criança a ir para a escola antes dos 6, ele está valorizando sua liberdade de ser, brincar e conviver – sem necessitar de uma instituição para mediar este processo que é naturalmente inerente à infância – e conta com um bom trabalho por parte das famílias (que entendem o valor disso e sabem o quê e como fazer).

As propostas de escolas infantis de 0 a 6 anos aqui na Alemanha também são públicas mas atendem principalmente as famílias que não podem fazer o seu papel nessa faixa etária (e é bem verdade que este número esteja aumentando, dadas as condições sociais e culturais que têm sofrido transformações e ocupado pais e mães fora de casa, aqui também). Mesmo assim, tanto o pai quanto a mãe têm direito à licença maternidade/paternidade de 1 ano, cada, garantido-se 2/3 de seus salários neste ano – que podem ser tirados em momentos alternados. Ou seja, a mãe pode ficar com a criança no seu primeiro ano de vida e o pai no seu segundo ano de vida – e aí já são 2 anos garantidos pelo vínculo familiar especialmente. E este pode ser também o que explica que a maioria das escolas infantis recebam crianças a partir dos 3 e já desfraldadas. É raro ver berçários aqui.

Eu particularmente sou a favor de que a criança fique em casa por mais tempo, ressaltando que esteja numa família em que pai ou mãe estejam predominantemente presentes e aptos a um educar de forma global para garantir mais chances de um brincar mais livre da criança e um melhor vínculo familiar. A meu ver, essa base bem feita possibilita uma melhor entrada na escola e um melhor desenvolvimento cognitivo futuro. Mas, óbviamente, sei que essa não é a realidade que vivemos no Brasil e, infelizmente, em muitos casos, a escola é melhor indicada (se não a única) para cuidar, orientar e facilitar o desenvolvimento infantil da criança.

E, para quem esteja se perguntando sobre socialização, eu relembro que não é só na escola que a criança aprende a socializar – desde que (novamente) seus pais entendam e reconheçam a importância disso e oportunizem para ela outros espaços/momentos com este objetivo.

Aqui na Alemanha, por exemplo, essa socialização acontece desde que o bebê nasce, uma vez que existem instituições públicas como a “Casa da Família” em que atividades são propiciadas para mães (ou pais) e bebês gratuitamente, em períodos distintos e de forma eletiva. Quanto a isso, eu fiquei especialmente surpresa com a quantidade de ofertas para um período de 6 meses (um livreto de umas 50 páginas, com letras pequenas). Atividades desde massagem shantala, até esportes, passando por grupos de orientação pedagógicas.

E, por falar em família, eu estou já morrendo de saudade da minha. Hoje Elisa (minha filha de menos de 2 anos) vai começar a fazer uma contagem regressiva para a minha chegada. Minha mãe fará com ela um desenho e, todo dia, elas marcarão “um dia a menos”.

Trazer o tempo para uma representação concreta ajuda a criança a entender o que acontece e a diminuir a ansiedade, uma vez que ela consegue ver que o fim da espera existe. O Filipe (meu filho de quase 9 meses) não apresentou alteração relevante no seu comportamento e nem na sua rotina e estou feliz por ele estar conseguindo lidar bem com minha ausência. É impressionante como as crianças nos surpreendem quando lhes permitimos isso!

Por hoje é só. Amanhã cedo seguirei para Talinn, na Estônia, onde iniciarei a visitação a mais 6 escolas na segunda feira.

Um abraço e até amanhã.

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Dia 5: projeto inovação educacional em foco

Hoje visitei 2 escolas em Suttgart (Alemanha), a Pelikanschule, de 6 a 10 anos e a Jorg Ratger Schule, de 11 aos 18 anos. Ambas inclusivas, atendem alunos de várias etnias e com algumas necessidades especiais de aprendizagem.

Foi especialmente interessante ouvir de uma aluna da Jorg Ratger que a diversidade cultural é considerada por ela como um ponto forte.

Preciso admitir que fiquei um tanto quanto decepcionada ao perceber que o curriculo “vocacional” deles é, na verdade, baseado exclusivamente nas habilidades linguísticas e numéricas dos alunos. Ou seja, todos são avaliados com o mesmo tipo de avaliação e as trilhas de aprendizagem (que os alunos, juntamente às suas famílias, escolhem aos 10 anos) serão sugeridas com base no resultado dessas avaliações.

Tomando por base a teoria das múltiplas inteligências de Howard Gardner, ficou claro que as inteligências que não forem linguística ou numérica não tem o mesmo valor para essa classificação/orientação.

Fazendo uma comparação rasa, para fins didáticos, é como se as trilhas de aprendizagem classificassem os alunos em “baixo” desempenho, “bom” e “ótimo”. O “ótimo” seria o que eles chamam de Ginásio. O “bom”, o Realschule. Foi uma pena constatar poucas metodologias ativas no Ginásio, em comparação a essa “trilha” e, mais ainda, perceber que a educação sócio-emocional acontece de forma mais intencional e direcionada também no Realschule – mesmo sendo essa uma necessidade de TODAS AS PESSOAS e não só daquelas com menor desempenho nas provas centrais.

Todavia, uma vez exercendo meu olhar criativo, o modelo alemão dividido em trilhas ofereceu-me insights valiosos no que tange às metodologias de personalização (os quais esclarecerei no relatório final exclusivo para os apoiadores desse projeto pelo Catarse).

Eles estão em momento de alteração deste sistema, talvez por uma questão política também (em alguns momentos essa influência foi citada pelos profissionais que apresentaram as escolas, ainda que de forma bastante melindrosa e superficial). Existe a pretensão de acabar com estas trilhas e oferecer uma mesma escola para todos.

Em resumo, devo ressaltar que tenho me esforçado em relação ao meu objetivo de capturar insights (com objetivo de ampliar o repertório de práticas pedagógicas inovadoras no Brasil) em cima do que tem sido apresentado, mesmo percebendo que, para uma compreensão mais real e fidedígna do que eles fazem na Alemanha seria preciso algumas semanas de imersão. O que quer dizer que eu estou muito mais registrando insights a partir da impressão que adquiri durante algumas horas de apresentação das escolas do que em cima de um estudo aprofundado da metodologia e do sistema vigente neste país (considerando que isso tomaria um tempo muito maior do que o que tenho disponível).

E, por falar em tempo, hoje consegui falar com meus filhos!!!

Eles estavam com suas carinhas mais alegres mas meu coração parte toda vez que Elisa pergunta “onde você está, mamãe?” como quem quer dizer “por que não está aqui, mamãe?”.

Eu gosto de sempre ser transparente e o máximo verbal possível com meus filhos, porque entendo que o sub-ententido enrijece ainda mais as emoções e isso tende a ser negativo. Então disse a ela: “Mamãe também não está gostando de ficar longe de você, filha. Estou triste por isso e com muitas saudades. Mas estou fazendo um trabalho legal aqui e fico feliz de ver que você também está conseguindo se divertir aí.”

E completei: “eu ainda vou demorar um pouquinho, filha. Mas jajá a mamãe chega!”

Hoje, no intervalo de visitação às escolas, pela primeira vez, me peguei percebendo o que estava me fazendo me sentir mal. Era a saudade. Especialmente, do abraço e do cheiro deles. Concentrei-me nisso e me percebi vazia um pouco. Estar com eles me abastece muito. E, confesso, racionalmente tratei de esquivar meu pensamento e preencher-me de outra experiência.

Agora, vou tomar banho e, antes de dormir, gastarei mais alguns minutinhos assistindo aos vídeos que diariamente minha mãe me manda de suas aventuras. Assim me sinto mais próxima e mais abastecida de nosso vínculo.

Um abraço e até amanhã.

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Dia 4: projeto inovação educacional em foco

O dia começou com um seminário no ministério da Educação do estado de Baden-Wurttemberg, conhecido como ministério da Cultura, Juventude e Esportes.

Foi especialmente interessante a presença do Cônsul brasileiro que, em seu discurso para a nossa delegação brasileira (grupo do qual faço parte nessa visitação técnica), disse admirar a nossa postura humilde de quem se propõe a visitar para aprender. Ele não fez nenhuma alusão ao fato de serem melhores ou piores que o Brasil. Mas achei fundamentalmente importante ele destacar que toda pessoa que sai de seu lugar para conhecer mais é humilde ao passo que se percebe num lugar de agregar e construir, ao contrário do que seria a auto-suficiência.

E neste viés de aprendizado, confesso que meu maior desafio de hoje foi justamente manter meu mindset voltado para a atitude criativa em vez de comparativa. Uma vez que é impossível e inútil comparar os sistemas alemão e brasileiro de educação – pelo tanto que somos diferentes também economicamente, socialmente e culturalmente.

O sistema educacional da Alemanha é tão diferente do nosso que é até difícil de entender. O próprio funcionário do ministério da educação do estado de Baden-Wurttemberg não conseguiu responder a todos os meus questionamentos. Receio que, assim como eu e meus outros colegas de delegação tivemos dificuldades para entender o modelo alemão (por estar tão distante do nosso), ele também não conseguiu esclarecer didaticamente o funcionamento (por ser tão óbvio para eles).

O desafio de uma postura mais criativa e menos comparativa talvez seja a chave para todo e qualquer desenvolvimento genuíno. Não é possível transformar nada olhando para o que não se tem. Por isso, comparar é perigoso. Penso que o ponto seja justamente olhar como um caçador de inputs. Com a postura de aprendedor, de encontrar o que pode ser útil mesmo num contexto diferente. Olhar para a coisa como ela é, neste caso, para a realidade brasileira como ela é (mas também poderia ser para a criança como ela é #EducarComLeveza) e fazer o exercício de agregar valor baseado nesses inputs sem se perder na angústia que nasce do desejo do que poderia ser, mas não é.

O sistema educacional alemão tem, em resumo, um mesmo currículo para todos entre 6 e 10 anos. Depois, oferece 4 tipos de currículos diferentes que se se mesclam entre totalmente acadêmico até predominantemente técnico-profissionalizante, dos 11 aos 18 anos. Aos 11 anos, a escola envia um documento orientativo para os pais sugerindo, com base no desempenho da criança, qual dos 4 currículos ele deve seguir. Mas a responsabilidade dessa escolha é da família. E o aluno tem liberdade para perpassar por estas trilhas desde que apresente desenvolvimento compatível com cada uma delas.

A escola profissionalizante é incrível! Ultra-moderna e totalmente gratuita. Utilizam metodologias ativas desde 2003.

A “escola” infantil que visitamos hoje, dos 3 aos 6 anos, não alfabetiza (porque não é obrigatória, somente a partir dos 6 anos conforme a lei vigente), não tem turmas divididas em grupos etários (tipo séries ou anos), convivem em espaços temáticos (ateliê, música, teatro, culinária, ciências naturais, movimento, línguas) em vez de salas de aula e em espaços de convivência para troca de papéis-sociais (funções). Ainda existe a ilha da tranquilidade, que seria a versão mais respeitosa à criança, já proposta por Maria Montessori, para substituir o famoso “cantinho do pensamento” tão presente (i inútil) na cultura brasileira.

Em ambas as escolas esteve destacada a postura mais ativa do aluno e importância da capacitação (life long learning) e do autoconhecimento do professor.

Ainda que não se aproxime tanto ao que acontece na prática no Brasil, foi gratificante perceber as inúmeras coerências com as propostas presentes na nossa lei de diretrizes e bases (LDB) e na nossa base nacional comum curricular (BNCC).

Quando eu retornar pro Brasil entregarei aos apoiadores da campanha de financiamento coletivo que custeou minha vinda até aqui, materiais que conectam todos os meus insigths à LDB e à BNCC. Se você não foi um desses apoiadores mas se interessa em receber esse material prático, escreve para mim em biancasollero@gmail.com que eu responderei como você poderá adquirir este serviço agora.

Bem, o dia foi intenso e mentalmente sobrecarregado de tantos inputs! Até por isso, infelizmente, não consegui falar com meus filhos. Estou com saudades. Sempre que posso corro o olho na fotinha deles que está no meu celular.

Às vezes me pego pensando se vou aguentar até o final. E tento transformar a saudade numa motivação ainda maior para traduzir essas visitas técnicas em práticas que realmente possam ser aplicadas e façam sentido no nosso sistema brasileiro de educação. É como se esse fosse o preço dessa distância que dói.

Precisa valer a pena tudo isso. E a verdade é que, independente de como as coisas são apresentadas, eu sou a única responsável por fazer valer realmente a pena. É minha postura criativa o que me permitirá extrair uma limonada que nos seja minimamente refrescante, desse pomar gigantesco e saboroso de limão que comecei a ver hoje por aqui.

Até amanhã!

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Dia 3: projeto inovação em foco

Agora são 22:25h. Acabei de falar com Elisa e Filipe e a saudade começou a incomodar…

É o terceiro dia, ainda faltam 9 e a visitação específica às escolas ainda nem começou…

Dia 1 foi só a chegada. Dia 2 o Talk sobre criatividade que eu apresentei em Zurich e, hoje, o dia foi investido especialmente na cidade Universitária de Tubingen. Uma cidade linda, pequena, mas importantíssima.

Nessa universidade a genética foi descoberta e a primeira máquina calculadora também.

Nessa foto, aponto para a janela onde o escritor Goethe morou por algum tempo, ainda na cidade de Tubigen. Ao lado dessa casa conheci também a edificação que à época funcionou como editora de seus livros.

Neste prédio, já funcionou o colégio interno de Artes. À época o que se aprendia nesse colégio era Astronomia, Lógica, Retórica, Geometria, Aritmética, Gramática e Música. Philipp Melanchthon, astrônomo reconhecido como braço direito de Lutero, foi professor nessa instituição.

Fiquei especialmente impressionada com a riqueza estética e intelectual de uma cidade tão pequena e interiorana. E isso me pôs a refletir sobre a nossa riqueza interior, especialmente a das crianças. Sobre o quanto seres tão pequeninos são riquíssimos. Donos de uma riqueza tão pura e altamente potencial que arrisco dizer ser maior que aquela dentro dos seres “maiores”(refiro-me aos adultos).

A visitação à cidade universitária terminou às 16h e seguimos para Stuttgart, onde chegamos por volta das 18h. Dei uma volta aos arredores do hotel sozinha, depois jantei com a turma e agora vou descansar.

Até amanhã!

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Dia 2: projeto inovação educacional em foco

São 20:30 e eu estou em algum lugar entre Zurich e Munique.

O talk em Zurich foi um sucesso, pelo menos para mim. Realizei o desafio a que me propus. Filmei para rever e destacar os pontos de melhoria. Acredito que foi um excelente primeiro desafio internacional (ainda que tenha frustrado algumas expectativas).

Hoje mais cedo, quando a Taís (a brasileira que organizou o evento) me buscou na estação de ônibus, chegando em Zurich, ela me perguntou: “o que mais te preocupa sobre seu talk hoje?” Eu disse: “se eu vou conseguir me fazer compreendida por quem estiver assistindo”.

Ela completou: “você não está apreensiva caso o público presente seja muito pequeno?” E eu respondi: “Não!” Eu estava preocupada em respeitar o tempo de quem estiver lá.

Durante a tarde eu conheci alguns prédios da Universidade de Zurich e não tive tempo de revisar a apresentação que fiz no ônibus, na ida de Munique a Zurich.

Cheguei na sala em que faria a apresentação. Respirei, maquiei, troquei de roupa e esperamos as pessoas chegarem. Mas elas não chegaram!

Só ele chegou! O Caleb.

Um homem interessado no que eu tinha para falar. Que, aliás, também era Brasileiro.

E, quando desistimos de esperar por mais pessoas o que eu fiz? O talk!

Sim! E em inglês. Afinal, este era o desafio ao qual eu havia me proposto e isso era o que, naquele momento, só dependia de mim.

Optar por não fazer seria atuar a favor da frustração. Fazer seria aproveitá-la como base para algo melhor depois.

Confesso que me senti mais ainda pressionada pela qualidade do inglês por estar apresentando para dois brasileiros (a Taís e o Caleb).

Fiz e, ao final, a mensagem havia sido compreendida! Ou seja: meta cumprida com louvor!

Não foi bem um sucesso no quesito “lotação” mas foi um sucesso para mim.

Receio que a Taís tenha sido frustrada, pois ela se empenhou muito para a realização desse talk.

Mas, quanto a mim, meu esforço valeu super a pena. Eu, agora, tenho uma pequena palestra de 25min construída em inglês, já testada e registrada, prestes a ser masterizada.

Numa nova oportunidade, poderei fazer ainda melhor! E, se eu tiver passado alguma vergonha, pelo menos não passei na frente de muitas pessoas.

Eu acredito na criatividade não só como uma habilidade, mas como um mindset, um jeito de ver e de encarar a vida. Enxergar eventos frustrantes pela ótica do aprendizado é colocar em prática o que eu chamo de POSTURA CRIATIVA perante a vida. O que quer dizer encarar estes eventos como parte do seu repertório que um dia será utilizado para combinar com outro evento e criar uma nova solução.

Este é o cerne do processo criativo, basicamente composto de 4 etapas:

1. Observação e experiência para ampliar o repertório > 2. processamento e incubação para combinar ideias ou experiências aparentemente distintas > 3. exposição e teste dessa nova ideia > 4. aprovação ou aprimoramento da ideia.

Criatividade não serve só para tarefas sensíveis ou artísticas. Criatividade é o que nos habilita a olhar a vida por uma ótica mais positiva.

Sério, ao final eu pensei: “será que eu conto para as pessoas a verdade ou deixo omitido o detalhe da plateia na frase “foi um sucesso” (que não é mentira)?”

Por um lado, eu pensei: “se eu contar a verdade, as pessoas vão me achar uma fracassada! Vou achar que eu perdi meu tempo e vão ter dó de mim…”

E mais: eu não queria frustrar as dezenas de pessoas que me mandaram mensagens de apoio, de incentivo, que torceram e disseram para eu ARRASAR! Eu me senti responsável pela expectativa delas…

Mas decidi contar o detalhe.

Por dois motivos: 1. Para sair da imagem de sucesso fácil e irreal que as redes sociais nos faz parecer (e que a vida real também não nos permite contar) e 2. Para dar o testemunho fidedígno da minha real motivação em inspirar educadores a nutrirem a criatividade das crianças (que é o fato de habilitá-las a viver a vida com mais positividade).

Além disso, eu realmente acredito que a gente só conquista o que é nosso quando assumimos todos os prós e contras de um caminho verdadeiramente autêntico. E autenticidade pressupõe mostrar a sua verdade para os outros, né? Mesmo que isso não seja muito confortável.

A todos que me incentivaram para ARRASAR eu posso dizer que, sim, arrasei… ainda que só para duas pessoas, hehehe.

Mas o que importa é que, o que dependia exclusivamente de mim, foi feito! Bem feito!

E seguirei nesse caminho. Até amanhã!